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Prenúncio do fim ou reinvenção ?
Por Wilson Nakamura, 19/09/2010
Assistindo a derrota de hoje do Palmeiras contra o SPFC é triste observar o conformismo que muitos palmeirenses encaram hoje em dia ao perder para eles. A impressão que dá é que muitos palmeirenses já aceitam, consciente ou inconscientemente a definitiva inferioridade do nosso clube em relação ao deles. Ou seja, somos o terceiro clube de São Paulo, atrás dos dois grandes e, talvez acima do Santos, pelo menos em termos de torcida e exposição na mídia.
A minha tristeza é maior ainda quando reflito com os meus botões sobre o que está acontecendo. Estamos perdendo uma guerra fundamental para o SPFC. Uma guerra que muitos talvez não percebem ou não querem admitir. Gostaria de explicar-me melhor.
Existe uma piada antiga e popular que diz o seguinte. Dois caçadores estavam no meio da selva, quando foram surpreendidos por um leão. Os dois encararam o leão, o leão encarou aos dois, e ato contínuo um começou a correr e o outro agachou-se para colocar o tênis, pois ambos estavam descalços. O que saiu a correr perguntou para o outro. Você não vai fugir?
Você não vai correr mais do que o leão, perdendo tempo botando o tênis. O outro respondeu: Não preciso correr mais do que o leão. Preciso correr mais do que você…
O que essa piada tem a ver com a rivalidade de Palmeiras e SPFC? A coisa é simples. O pessoal do Jd. Leonor já percebeu há muito tempo que para se tornar o maior clube do Brasil é necessário ser um dos dois maiores clubes de São Paulo. E eles não eram. Por isso, adotaram uma estratégia que para mim está muito clara. Vamos superar o Palmeiras. Vamos nos tornar a segunda maior torcida de São Paulo, não por uma pequena diferença, mas por uma diferença relevante. Vamos tornar o Palmeiras um
clube coadjuvante no cenário do futebol paulista, partindo do pressuposto que existe uma tal Teoria dos Dois Grandes, em que somente dois grandes clubes tendem a polarizar a rivalidade e as atenções da população de uma cidade e talvez de um estado.
Pois bem, a estratégia deles deu certo. Por méritos deles (não vou expressar juízo de valor em relação aos métodos discutíveis que eles muitas vezes usam para dominarem as disputas), e por fraqueza nossa. Hoje a torcida do SPFC é maior do que a nossa, e o problema não é esse. O problema é que entre os jovens essa diferença de torcida está se tornando dramática para nós palmeirenses, embora seja um problema que vai estourar mais para a frente, daqui a dez a vinte anos, pelo menos.
Usando a analogia da piada que expus neste texto, o pessoal do Jd. Leonor já percebeu há muito tempo que eles não precisam ser melhores do que todo mundo, nem tampouco do que o Corinthians, mas basta ser inequivocamente melhor do que o Palmeiras, para que o seu plano de se tornar o maior clube do Brasil se concretize.
A tristeza profunda que me abate em ver esse processo é tamanha, principalmente porque estamos, por razões diversas, aceitando, conformadamente, tornar-se um clube coadjuvante, quando tínhamos o direito histórico de sermos sempre protagonistas. Da mesma forma que em Buenos Aires o futebol tende a se polarizar entre River Plate e Boca Juniors e em Turim entre Inter e Milan, em São Paulo infelizmente estamos assistindo impotentes se configurar como grande clássico do futebol paulista Corinthians x SPFC, contrariando a história, que já havia “protocolado” Palmeiras x Corinthians
como o grande clássico do futebol paulista.
A situação atual e a tendência futura infelizmente é tenebrosa, se admitirmos que os erros dos últimos trinta anos perdurarão. Mas talvez um grupo consciente de palmeirenses saiam da sua zona de conforto e se disponham a tentar reverter esse quadro, que aos olhos de muitos talvez possa parecer irreversível. Para isso, temos que recuperar a força que perdemos. Temos que admitir que a gestão amadora do futebol dos anos antigos já não funciona mais há muito tempo e levará qualquer grande clube à
bancarrota. Temos que, especialmente, adotar uma estratégia clara de superação do nosso falso co-irmão, SPFC (falso co-irmão, porque de co-irmão esse clube não tem nada).
Sei que palmeirenses orgulhosos e que sempre batem o punho no peito dirão que o que escrevi é fantasia, é bobagem. Que a coisa não está tão preta assim. Que o Palmeiras é grande, sempre foi e sempre será. Mas eu, sinceramente, prefiro encarar a realidade com menos paixão e mais razão, e perceber que, friamente, estamos caminhando, paulatinamente, para ser, no futuro, um clube coadjuvante, um clube que talvez aspire um ano ou outro a ser campeão, mas nunca como favorito.
Se não agirmos rápido e com um projeto objetivo e consistente vamos perder definitivamente o bonde da história, e talvez nunca mais recuperemos a posição que um dia já ocupamos.
Se não agirmos rápido, não seremos um dos verdadeiramente grandes de São Paulo e perderemos a chance que na verdade nenhum clube brasileiro pôde aproveitar, por razões diversas, que é o de se tornar um clube globalizado, um clube efetivamente grande a nível mundial, com acesso a grandes receitas e grandes patrocínios, com capacidade de contratar grandes jogadores do futebol mundial e criar uma estrutura que permita se perpetuar ao longo do tempo como clube “intocável”, intocável no sentido de
se manter sempre forte e poderoso, mesmo que, de vez em quando fique um
tempo sem ganhar títulos de expressão.
Ou o Palmeiras acorda e reage a esse processo de aniquilação que estamos sofrendo por parte do SPFC, ou assistiremos um quadro no futuro que nos fará chorar para sempre.
Ficarei um pouco mais feliz o dia que perceber que nós palmeirenses nos levantarmos, não aceitamos mais passivamente a inferioridade que nos foi imposta, talvez principalmente por culpa de nós mesmos, dos nossos erros, da nossa incapacidade de formar times constantemente vencedores ou, no mínimo, competitivos.”
Brilhante texto de Wilson Nakamura, postado no Mondo Palmeiras por Vladimir Rizzetto
http://www.mondopalmeiras.net/blog/2010/09/20/radio-mondo-palmeiras-edicao-197/comment-page-3/#comment-590945